21 novembro 2017

Quentin Tarantino e oito pessoas com motivo de sobra para serem odiadas.

Por algumas décadas, ali pelos anos quarentas aos sessentas, filmes de farwest eram vistos por legiões de pessoas em todo esse planeta azulzinho. Imensa era a legião de apaixonados por tais películas, de grandes astros, feito John Wayne e Randolph Scott, e clássicos como Shane, No tempo das diligências, Rio Vermelho, Matar ou morrer. Os tempos foram mudando, as pessoas, idem, os gostos e interesses mudaram junto. E vieram os filmes sobre o velho oeste feitos na Europa, notadamente na Itália. Mostravam um novo jeito de se fazer westerns, com closes e big closes, protagonizados por anti-heróis de caráter dúbio, para dizer o mínimo. Viraram uma febre mundial. Essa nova onda durou um bom número de anos, mas acabou passando também e hoje o filão já não domina o cardápio do público consumidor, mas filmes de farwest ainda são uma paixão de muitos e, ainda que sem ter a mesma aceitação popular de antes, o gênero não morreu. Volta e meia um bom cineasta resolve revisitar o tema. Dois desses moviemakers são Jim Jarmusch, com Dead Man, estrelado por Johnny Depp, e ainda o diretor Quentin Tarantino, com The hateful eight (Os oito odiados), de 2015, que traz um grande elenco, onde se sobressaem Samuel L. Jackson, Kurt Russel, Michael Maiden, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh. Quentin Tarantino, em verdade, não é um estreante nos westerns, já havia feito Django Livre, de 2013. Em ambos ele se vale de personagens negros para trazer à tona as questões raciais, um ingrediente extra nas suas tramas intricadas, cheias de mistérios e segredos, onde as pessoas nem sempre são o que parecem ser. Em Os oito odiados, a exemplo dos spaghetti westerns, Quentin lança mão de toda sorte de anti-heróis, caçadores de recompensas, quadrilheiros, assassinos frios. A mentira, violência e o sangue jorram fartamente em em meio a um cenário em que toneladas de neve e uma incessante nevasca tornam-se parte importante da trama. Para a trilha sonora, Tarantino chamou ninguém menos do que o consagrado compositor Ennio Morricone, de enorme talento e uma vasta e irretocável contribuição para o cinema, tendo na sua rica bagagem uma expressiva participação nas mais belas trilhas sonoras de westerns made in Italy, como a de Il bello, Il brutto, Il cattivo, que consagrou de vez Clint Eastwood, seguramente a mais bela e conhecida trilha musical já feita para filmes sobre o velho oeste. Essa semana me deliciei revendo essa jóia cinematográfica assinada por Quentin Tarantino. Para você que sabe o que é bom, esse filme é encontrável no Youtube, com direito a áudio original, legendas em espanhol, e imagem em HD. Não importa o gênero que resolva filmar, Tarantino sempre nos brinda com filmes que fazem o deleite dos que amam a grande arte do Cinema.

Agressões e gestos obscenos de jogadores do Flamengo, a Rede Globo, o declínio do futebol brasileiro.

Torcida brasileira, muito da derrocada do futebol brasileiro como força mundial se deve à ganância e falta de escrúpulos dos empresários da Rede Globo de Televisão. Graças aos seus nefandos conluios com crapulosos dirigentes da CBF e seus sórdidos interesses financeiros, a dita Rede tornou-se proprietária do esporte, relegou-o à reles condição de mercadoria, um mero programa a mais na sua grade de programas. Aqui nessa terra brasilis, o futebol não se tornou uma superpotência da bola de uma hora para outra. A esse invejável patamar chegamos com méritos através dos irrefutáveis talentos de craques, verdadeiros deuses dos gramados. Craques como os geniais Pelé e Garrincha, ao lado de outros jogadores maravilhosos, encantaram o mundo inteiro e tornaram a camisa amarelinha a principal referência mundial quando o assunto é o chamado esportes das multidões. Pois a Rede Globo de Televisão, vendo nesse esporte a possibilidade de ganhos ilimitados, tratou de apossar-se desse filão ultra-super- trilionário. Muito dinheiro correu, muita mutreta rolou, muita gente de moral duvidosa embolsou dinheiros para que, enfim a Rede Globo se tornasse, como de fato se tornou, a proprietária, a dona, a senhora, toda poderosa que manda e desmanda ao que chamamos nosso futebol, que já não é nada nosso, é dos riquíssimos proprietários da Rede Globo. Aquele vergonhoso 7x1 fora-o-baile que levamos da seleção alemã dentro de nossa própria casa não é causa, é consequência desse estado de coisas. Com sua enorme influência, a Globo dita regras, interfere em tabelas, horários de jogos, quem vai ou não para a seleção, quem lá será mantido como craque sem sofrer o açoite dos comentários depreciativos, tão destruidores, dos galvõesbuenos da vida. Usando da força de sua elevada audiência, a Globo sempre impôs seus interesses que muita vez sufocam os interesses dos torcedores e do nosso futebol. Isso se estende da seleção ao futebol de maneira geral, vez que as federações de futebol e os clubes de futebol tornaram-se dela dependentes, e assim ela se nos impõe suas regras e nos faz assistir o que ela quer e quando ela quer que assistamos, privando-nos de acompanhar os times e os jogos que de fato queremos ver, dando prioridade aos programas de sua grade televisiva. Para que a audiência da novela não seja prejudicada, somos forçados a comparecer em estádios ou assistir em casa jogos em horários noturnos proibitivos, criando grandes problemas de transporte e segurança para as prefeituras e cidadãos. Isso se estende aos demais países da América Latina que participam de torneios com clubes brasileiros. Enquanto as coisas seguirem dessa maneira, jogadores de times apadrinhados pela Globo farão o que querem, se estapearão à vontade, e farão seus gestos obscenos no palco que quiserem, sem serem punidos de acordo com o teor de seus atos indignos. E nunca é demais dizer que nós, torcedores brasileiros, o futebol seguirá descendo os degraus do túnel que conduz a um futebol sem brilhantismo nem grandezas, tornando-se um rebotalho, uma sombra apagada do futebol maravilhoso e vencedor que já fomos um dia, e que tanto encantou as plateias de todo esse planeta.

20 novembro 2017

Coffee and cigarrettes, Jim Jarmusch: café, claquete e muita fumaça.

Humanos prazeres são por vezes de difícil entendimento e aceitação para os que deles não desfrutam. Mas não há como negar o intenso e inebriante deleite que se adivinha por trás das expressões oriundas das faces daqueles viventes que fazem do hábito de desfrutar um cigarro depois de um café – e de um café antes do cigarro – um ritual sagrado, inadiável, inigualável, único para essa galera. Um turbilhão de prazeres nascendo de momento que aparenta ser de total banalidade, um vício saudável, diriam tais rubiaceaófanos e tabagísticos viventes. Jim Jarmusch, um dos meus cineastas norte-americanos de estimação, aborda, no mais colorido dos pretos e brancos, essa temática em seu Coffee and cigarrettes, filme lançado nos EUA em 2003. Nele, Jim vale-se de sua câmera e de uns poucos planos, de diálogos inteligentes, aparentemente despretensiosos, sempre oscilando entre o prosaico e o nonsense, ditos com propriedade pelas bocas de atores expressivos, que dominam o seu ofício de atuar. Mesmo os que como eu não fumam, nem bebem café com a sofreguidão dos personagens, certamente se regozijarão com as interpretações de astros como Roberto Benigni, Iggy Pop, Tom Waits, Bill Murray e tantos mais. Jarmusch capta o momento íntimo e aparentemente banal, em que personagens dividem seus cafés e cigarros sobre mesas cobertas com indefectíveis toalhas quadriculadas, e aí ele mistura ficção com realidade, vez que os atores entram em cena apresentando-se com seus famosos nomes da vida real, identificam-se como sendo os atores consagrados que de fato são e, no entanto, vivem em situações em que mostram um incômodo arsenal de defeitos comportamentais e de caráter nada elogiáveis, em que prepotência, arrogância, maledicência, rancor e desdém podem entrar em cena, ao lado de ingenuidade, da simplicidade, da boa-fé, de sentimentos edificantes. E tudo isso conduz a um humor sutil, raro, pouco encontrável nas telinhas e telonas do mundo, diálogos super divertidos, especialmente os protagonizados por Murray, Iggy e Waits. Molina e Coogan. La donna è móbile e a internet é ainda bem mais, então quem quiser assistir, encontrará, ao menos por ora, o filme no Youtube, com áudio em Inglês e legendas em espanhol. Eu, que um dia haverei de ser um poliglota, tiro de letra e assisto de boas, que dirá você, meu scholar leitor.

Flamengo, troca de sopapos em campo, Rede Globo e o futebol que virou suco.

Nessa rodada de numero 36 do Brasileirão de 2017, o Flamengo enfrentou o Corinthians, já sagrado, com todos os méritos, o lídimo campeão brasileiro desse corrente ano. Nesse jogo vimos coisas de estarrecer, que nada têm a ver com o dito esporte bretão: dois jogadores do Flamengo, mostrando total despreparo e nenhum pingo de fairplay, se estapearam, se esmurraram, se cuspiram, se arrostaram, trocaram cabeçadas, com direito a gestos obscenos claros para qualquer espectador ver no conforto de seu sacrossanto lar ou de um boteco na esquina, esse mais adequado para assistir tais belicosos e malcriados eventos. Tudo bem debaixo das fuças do árbitro da partida e o sujeitinho fez que nada viu, fez a egípcia, fez cara de paisagem, fez que não era com ele, não. Bom, ocorre que os protagonistas dos lamentáveis acontecimentos são jogadores do Flamengo, time do Rio de Janeiro, apadrinhado pela poderosa Rede Globo de Televisão. A Globo sempre busca preservar coisas e entidades que são dos seus particulares interesses, indiferente aos erros e culpas que possam ter. E quando algum jogador de um time qualquer que não esteja na lista de seus clubes intocáveis, comete uma ação censurável, como uma entrada entendida como muito violenta, a Globo a exibe diuturnamente, com censuras e ares de redentora da moralidade. Alguns acontecimentos deixam atuais deixam isso claro, mas vou me valer de um ocorrido há já algum tempo, mas que achei emblemático, envolvendo um ex-jogador do Timão, o meio campista Rincón que, em jogo com o Fla, disputava a bola com seus adversários e, a todo o momento, valendo-se de seu físico robusto, os desarmava por diversas vezes na partida, anulando-os. Os comentaristas da Globo, sempre parciais, fizeram um escândalo, sob alegação de que Rincón era desleal, violento. Um lance em que ele ia na bola e terminava por atingir com o braço o jogador flamenguista foi mostrado em diversos momentos, dias e dias a fio, ganhando uma visibilidade enorme, monstruosa, contundente, não se falava em outra coisa. Tanto fizeram que os árbitros passaram a marcar de perto o corintiano em todos os jogos, punindo-o com diversos cartões e advertências, com um rigor nada usual. O que ontem, na Ilha do Urubu, os jogadores do Flamengo protagonizaram em campo foi algo vergonhoso que deveria ser punido exemplarmente pelo bem do nosso futebol. Justiça se faça, a Globo noticiou o lamentável episódio, mas o fez em tom ameno, quase de gracejo, como se tudo não passasse de uma lúdica traquinagem dos marmanjos envolvidos. Ninguém da emissora platinada bradou pelas expulsões, nem disse que "a regra é clara!", embora clara, e muito clara, seja. E dese já, podemos antecipar e dizer que não serão punidos de acordo com a gravidade de seus atos. Isso, se punidos forem. Havendo punição (e aqui cabem aspas), será um arranjo, uma passagem de mão pela cabeça, tudo virará algo desculpável, compreensível, aceitável, mesmo que seja tudo escabroso, digno de ser punido exemplarmente. Uma vez mais, os interesses de alguns ditam as normas, o lixo será de novo varrido para debaixo do tapete e nosso futebol, malgrado nosso infindável e já pouco justificável sentimento de eterna superioridade, seguirá cada vez mais sendo uma sombra apagada do que já fomos um dia. 

19 novembro 2017

José Luis Torrente, um símbolo incontestável da masculinidade contra o homossexualismo.

Dentre os infindáveis estereótipos que estamos habituados a ver em cenas de filmes norte-americanos está aquele em que dois policiais com a missão de patrulhar as ruas da cidade estão no interior de sua viatura, curtindo aquela calmaria que costuma anteceder os grandes conflitos, conversando amenidades e saboreando com volúpia enormes e deliciosos donuts, que são uma espécie de rosquinha ianque com variados recheios e coberturas transbordantes de caldas com muito açúcar. Na ótima série de comédias do cinema espanhol em que o ator Santiago Segura interpreta o anti-herói José Luis Torrente, um agente policial franquista, racista, machista e fascista, xenofóbico e homofóbico, essa famosa cena é um tanto diferente. Enquanto está com um outro policial dentro de um carro, apatrullando la ciudad ou montando campana em alguma investigação, sob o pretexto de relaxar das tensões da vigília e passar o tempo que monotonamente se arrasta, Torrente propõe ao colega que ambos se masturbem de forma mútua. Os já iniciados nessa práxis topam na hora e partem logo para a punhetística parceria, certamente por acharem isso muito mais interessante que ficar se lambuzando com os tais donuts. Já os policiais novéis nessa prática de onanismo em dupla, relutam diante da proposta, alegando que isso não é coisa que fique bem entre dois sujeitos héteros, mas acabam cedendo diante de um argumento definitivo de Torrente que afirma que tudo é feito observando o respeito às mais ortodoxas normas do machismo. Enquanto cada um manipula freneticamente la polla alheia, ou seja, o membro, a piroca, a verga do outro, percebendo que seu parceiro deixa escapar longo e sonoro gemido de prazer, Torrente, resfolegante, em bom espanhol o adverte: ”Sin mariconadas! Sin mariconadas!”.

Filins inmái rarte: cantores norte-americanos made in Brasil

Numa de suas belas composições, Caetano Veloso – sempre um sábio - asseverou que só se é possível filosofar em alemão. Para grande parte dos brasileiros parece que só se é permitido cantar e gravar canções se elas forem feitas em Inglês. Basta ver o repertório apresentado por calouros em atuais programas das nossas TVs. E olha que isto já foi beeeeem pior, acreditem vocês. Nos anos setentas, em quase toda sua totalidade, cantores brasileiros foram sumariamente varridos das paradas de sucesso, programa de rádios, das TVs, da mídia em geral deste patropi abençoá por Dê e boni por naturê, maquibelê! Só se tocavam, só se escutavam, só eram divulgadas nas nossas mídias as músicas norte-americanas e inglesas. E como o ditado versa que quando você não pode com um inimigo, deve unir-se a ele, houve à época um acontecimento que vale a pena que nos recordemos sempre, dado o inaudito e o irônico do fato. Um novo contingente de gringos, nomes não ouvidos até então, foi invadindo rádios e TVs tupiniquins, sem esbarrar nas mesmas resistências às canções e aos cantantes brasileiros, tocando, fazendo enorme sucesso, integrando trilhas musicais de novelas, vendendo toneladas de discos, ficando meses em paradas de sucesso. Estes gringos na verdade eram "gringos", assim, com aspas, sendo tão americanos e ingleses quanto você e eu. Ou sejam, eram cantantes made in Brazil que acharam um jeitinho de fazer chegar a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor. "Norte-americanos" e "ingleses" nascidos por aqui mesmo, já que eram cantores e compositores brasileiros que, para burlar a barreira erguida pelo aculturamento, passaram a compor músicas no idioma de Bill Shakespeare e adotando como pseudônimos uma lista de nomes de origem anglo-saxônica para dar mais credibilidade, lembrando um recurso que cineastas e atores italianos empregavam, à época, ao produzirem seus spaghetti westerns. Para completar, as capas de tais discos feitas de forma a parecer que eram originalmente produzidos no exterior, e assim os nossos criativos “gringos” iam conseguindo seu lugar at the sun. Ou seja, foi imprescindível essa transgressão para que muitos artistas brazucas conseguissem fazer sucesso. E que sucesso, que sucesso! Nomes como Morris Albert, Terry Winter, Mark Davis, Tony Stevens, Steve Maclean e Michael Sullivan, entre outros, que embalavam as festinhas adolescentes, adentravam os lares, vendiam pilhas e pilhas de discos, ficavam meses nas paradas de sucesso. E depois de conseguirem esta façanha, partiram para uma maior, e começaram a figurar por largos tempos nas paradas de sucesso de diversos países e a serem gravados e regravados por gringos, estes, sim, autênticos. Morris Albert, por exemplo, teve sua composição "Feelings" gravado por cantantes do mundo inteiro, incluindo o consagrado Frank Sinatra e Elvis Presley. Outros grandes astros e estrelas da música norte-americana, como Nina Simone, também a gravaram, a lista de celebridades a gravá-la é enorme, incluindo o supracitado Caetano Veloso. No roteiro do filme "Susie e os Baker Boys" a canção é o pomo da discórdia entre os personagens da lindinha Michelle Pfeiffer e os brothers Jeff e Beau Bridges. Morris vendeu mais de 160 milhões de discos pelo planeta! Uau! Ontem, ao rever "Entre Tenieblas", de Almodóvar, percebi que uma das músicas utilizadas era "Dime", grande sucesso na Espanha. Nada mais que uma versão em língua espanhola para "Feelings", de Morris Albert. Um dia, um juiz da corte norte-americana afirmou em sentença que ao compor a música, Morris teria plagiado uma antiga canção de nome "Pour toi", composta em 1956 pelo francês Loulou Gasté, canção essa gravada por Dario Moreno, que fazia parte da trilha sonora do filme Les Feux aux podres. Muita gente que opina concorda que há semelhanças, notadamente nos acordes iniciais da canção, mas que elas não chegam a se constituir em um plágio, discordando frontalmente do juiz, cuja sentença foi amplamente favorável ao compositor francês já que, no entendimento do magistrado, Morris deve ser considerado apenas o autor da letra em Inglês, um absurdo que configura um autêntico assalto jurídico, e nós, brasileiros, sabemos sobejamente o que é isso. Polêmicas à parte, ''Feelings" tornou-se um dos imortais clássicos mundiais da canção graças ao talento de Maurício Alberto, nome verdadeiro de Morris, sendo Maurício um cidadão brasileiro, um paulista que, nesse país por vezes tão surrealista, por força das circunstâncias, tornou-se certo dia um cantor e compositor “gringo”.
(12/05/2013)

Siliconadas exageradas / Cartuns Popôlares

(18/09/13)

16 novembro 2017

Paulo Coelho: depois do duro Caminho de Santiago, finalmente La vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando eis que me deparo com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo ao meu caro amigo que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto tempo de verde-oliva y otras cositas más,  a coisa aqui está preta, e é muita pirueta pra cavar o ganha-pão. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho (de Santiago) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua ou do Vale da Muriçoca. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio! - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!
(Public. orig. 27/08/13)

Cafezinho na Bahia: a pausa que aquece ainda mais nossos calorosos corações.

 
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais carrinhos. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba de Sampa e do Rio, sendo cada carrinho de café personalizado pelo orgulhoso proprietário, cada carrinho com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz inveterados tabagistas e também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que no sul chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários e policiais, fartamente e a qualquer hora,  despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que nomeados para prestar serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e o melhor dos cafezinhos. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e fotografei esta cena genuinamente soteropolitana com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop
(25/04/14)

01 novembro 2017

Leonardo Da Vinci non era boneconne, era espadonne.

 Línguas recheadas da mais nefária cicuta lançam aos quatro ventos que o proverbial sorriso que Mona Lisa Gioconda exibia era resultado das habilidades libidinais do pintor Leonardo Da Vinci, que aproveitaria a ausência do giocondíssimo marido para comer a tentadora maçã que a sua sensual e bem fornida modelo, radiante lhe ofertava. E para que não se diga que fofoca é coisa da patuleia brasileira, àquela época já circulavam entre os filhos do Lácio fortes buchichos insinuando que o homem vindo da cidadezinha de Vinci não era muito chegado a cheirar, alisar, lamber, mordiscar e muito menos ainda comer a referida fruta. E que em verdade a preferência frugal de Leo era bem outra, constando que ele apreciava mesmo era cair de boca em olorosos bagos de apetitosos efebos cultivados na Grécia. Dizem, mas não há registro fotográfico, cinematográfico nem televisivo algum que ateste tal ignomínia. Tampouco não há nenhum vídeo circulando pelo YouTube que comprove o que tais línguas viperinas insidiosamente afirmam. Além de pintor, desenhista, engenheiro, músico, anatomista, cientista, inventor e o escambau - enfim, um autêntico multimídia avant la lettre - Leonardo era caricaturista, o que o torna um meu colega e em nome do bom, velho e salutar corporativismo, vou logo dizendo que esta queimação é produto de torpe invídia. A munheca do toscano, que firme empunhava sua paleta, jamais titubeou e ele não era pintor de sair por aí segurando indevidamente em pincéis alheios. Vilezas e calúnias quejandas não podem prosperar entre os dignos. Forza Leo! Forza Italia! Forza Azurra! 
(29/08/13)

Mulher de Escorpião no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Mulher de Escorpião
Comigo não! 
É a Abelha Mestra 
É a Viúva Negra 
Só sai de vedete
Nunca de extra
Cria o chamado conflito de personalidades
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana.
Agora de cama diz que é boa paca.
(o3/03/14)

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.
(13/09/16)

Bola de Nieve, um artista maior de Cuba / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso, La ley del deseo (Déjame recordar) e La flor de mi secreto (Ay amor), sendo que nesse último uma frase da linda composição de Bola de Nieve integra-se ao roteiro ao ser citada por um dos personagens da trama. Tempos houve em que as canções cubanas reinavam soberanas entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do carioquíssimo mineiro Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.
(02/09/16)

O Corinthians e o cracaço Rivelino, orgulho e raça da Fiel Torcida.

O imenso bigode nietschiniano indica que esse cara aí foi um grande e respeitado pensador. Não há como contestar isto, gentis leitores. Embora seus melhores trabalhos legados à humanidade não constem em nenhum dos compêndios da literatura universal, esse rapaz era um grande, um formidável pensador. Ostentando o número 10 nas costas de sua camisa do S.C. Corinthians Brasileiro, sagrado manto, ele pensava, pensava, racionalizava, arquitetava, construía, tecia o jogo do meu glorioso, salve, salve, Coringão do Parque São Jorge. Lá ele chegara ainda imberbe e ali seu bigodinho foi crescendo, crescendo até virar um frondoso e imponente moustache. E seu futebol também cresceu, cresceu, cresceu ainda muito mais, virou craque diferenciado aqui e no vasto universo do esporte bretão. Nós, torcedores mais atilados, já víamos isso nas partidas preliminares, ele arrasando no time corintiano de aspirantes, passagem de muitos para a consagração junto à Fiel. E a galera antenada chegava cedo aos estádios para ver o espetáculo dos aspirantes do Corinthians. Ah, meu Deus!, tantas e tantas alegrias nos deu Riva com sua técnica apurada, sua garra, sua vibração contagiante, tudo tão corintiano demais em sua essência. Sua canhotinha abençoada nos inebriava os olhos, com seus dribles desconcertantes, como o elástico que ele aprendera com Sérgio - o amigo nissei, ponta dos mesmos aspirantes - que Riva lançou ao mundo dando o devido crédito ao amigo. Sou eternamente grato a Riva como corintiano e como brasileiro já que ele, ao lado de Pelé, Tostão, Jairzinho e Cia, deu-nos a todos nós, o título mais incontestável que temos de Campeões Mundiais de Futebol que foi o de 1970. E ainda assim, pasmem, foi injustiçado por culpa de um decisão carregada de burrice do presidente Mateus, talvez pela ainda mais burra indução de obtusos cronistas de futebol da época que. em sórdida e difamatória campanha, tiraram de Riva a camisa 10 do Corinthians e quem saiu perdendo com isso foi a Nação Alvinegra, para alegria do Fluminense do Rio que soube dar a Rivelino o devido valor e carinho e ele soube retribuir dentro dos gramados. Negaram-lhe no Corinthians a glória do título de campeão paulista que já estava maduro após 20 anos de espera e aconteceria três anos depois da saída forçada de Rivelino. Quem ficou no prejuízo, nunca é demais repetir, fomos nós, apaixonados torcedores corintianos, que pagamos pela sordidez e a burrice alheias que permeiam o mundo do futebol com insistência. Mediocridades assim deviam ensinar coisas melhores a dirigentes, torcedores, a certos jornalistas e cronistas de futebol, mas sei lá porque não ensinam e seguem sendo o que são, sendo que alguns ganham fortunas para dizerem com convicção suas asneiras e suas "verdades" distorcidas, contribuindo com cartolas espertalhões e suas políticas nefastas, contribuindo assim para afundar o futebol brasileiro. Apesar dos pesares, ainda bem para nós que há o lado bom e nobre do chamado esporte mais popular do mundo: os autênticos craques do futebol. Nesse mais que seleto panteão passeia uma formidável legião de maravilhosos e inolvidáveis cracaços de bola, entre eles, com seu moustache niestzchiniano,o inigualável pensador Roberto Rivelino a quem os deuses do futebol legaram seus dribles mágicos, suas fintas desconcertantes, seus lançamentos precisos, seus chutes potentes e indefensáveis, sua genialidade enchendo de alegria meu coração torcedor corintiano da adolescência aos dias atuais. A Riva, eterno Garoto do Parque São Jorge - Ogun-yê, meu pai! - a minha eterna, inefável e imensurável gratidão.
(Public. orig). 30/05/10)

29 outubro 2017

Robério Cordeiro e sua arte de HQs, cartuns e ilustrações

Robério Cordeiro é um cara que transita no desenho há décadas. Primeiro conheci seu trabalho de quadrinista e criador de personagens quando ele surgiu acompanhando Cedraz, este já um desenhista admirado, a quem Robério, jovem recém chegado lá das bandas de Jacobina, interior baiano, insistentemente chamava de senhor. Era um tal de "Seu Cedraz" prá lá e "Seu Cedraz" prá cá, coisa de se admirar, o respeitoso tratamento. O tempo passou, torcida brasileira, e como por aqui na Bahia não há muito espaço onde se publicar desenhos de quadrinhos, tiras e cartuns, Robério, ao invés de ficar chorando, sentado à beira do caminho, optou por colocar seu traço a serviço do IRDEB/BA, fazendo por lá toda sorte de trabalhos, desde ilustração para livros de teor didático, capas de CD, encartes e uma montanha de coisas onde cabe seu traço fino, sendo ele próprio um rapaz de finos traços e, qual um Wilson Gray, aquele ator brasileiro de ortodoxo visual, Robério Cordeiro atravessa a vida com a mesma cara de menino, o mesmo corpitio que tinha em adolescentes dias. Com o advento da informatização, Robério - hoje artisticamente maduro - ampliou seu universo, acrescentando ao seu cabedal o domínio do Photoshop e uma cacetada de programas outros que só fizeram aumentar a qualidade do trabalho desse artista gráfico baiano, que pode ser conferido nestes links aqui: http://www.roberiocordeiro.blogger.com.br
http://www.flickr.com/photos/roberiocordeiro
Ah, sim, há também o link para o Portal do IRDEB/BA. Você clica aqui neste http://www.irdeb.ba.gov.br/ e lá acessa a Galeria de Imagens para ver algumas das mui belas criações do Robério Cordeiro.
(03/11/13)

28 outubro 2017

Cleomar Brandi: uma festa com muita alegria em seu velório e sepultamento.

"Notícia não é  folha de outono; não cai no colo." Essa frase, dizia-a Cleomar Brandi, jornalista baiano nascido na cidade de Ipiaú, que acometido de câncer, faleceu em julho de 2011 em Sergipe, onde morava. Fica evidente que, além de periodista, o cara era também escritor e poeta. Não o conheci pessoalmente, mas tivemos amigos em comum, e trabalhei muito tempo no jornal A Tarde com seu irmão, o também jornalista Chico Ribeiro Neto. Por um amigo do IRDEB, Robério, fiquei sabendo que Cleomar, que viveu a vida intensamente, amava sua profissão com todas as forças da alma assim como amava os amigos e a própria vida, era um cara querido e especial. Tão especial que, sabendo que sua morte era iminente, reuniu as forças e escreveu uma carta de despedida reafirmando suas escolhas, seu amor à vida, os bons momentos vividos,  o apreço aos verdadeiros amigos. Edith Piaf em sua canção maior, Rien de rien, dizia que não, não se arrependia de nada e desfilava segurança e ausência de mágoas pelos acontecimentos de sua conturbada existência, desconsiderando cizânias acontecidas, minimizando possíveis frustrações ocasionais na longa jornada do viver. Cleomar foi além, deixou determinado e bem claro a todos os amigos que eles deveriam fazer do seu velório não um acontecimento encharcado por copiosas lágrimas, pungentes lamentações que perdas costumam trazer, instantes para tristes e lancinantes lembranças do amigo que partira, mas, sim, uma alegre festa de celebração da vida, da felicidade de viver entre seres amados desfrutando da amizade verdadeira, momentos onde não coubesse nenhum pingo de deprimente tristeza, tudo muito de acordo com a filosofia que ele seguira à risca vida afora. E foi ainda mais longe: sabendo que os amigos, fiéis, iriam em peso ao seu sepultamento, conclamou que todos, depois de saírem do cemitério deveriam ir ao Bar do Camilo, onde ele, previamente, deixara paga a conta para uma mais que alegre bebemoração com seus queridos confrades, ainda que ele ali não pudesse estar presente em seu corpo físico. Quem lá esteve, disse que no momento em que bebiam em seu louvor, surgiu no céu um inefável arco-íris duplo, indicativo de que Cleomar não ia perder essa e se juntava aos amigos nessa sua retumbante festa de despedida deste mundo. O clima alegre que marcou o encontro pode ser visto nestas fotografias que mostram a festa alusiva ao evento pós-sepultamento. Na última delas, uma foto recente do amado Cleomar, um ser humano que soube viver a vida, um anjo radiante em sua derradeira despedida, em sua última saideira. 
(09/08/11)

22 outubro 2017

Deus e o Diabo na tela do sol

 O cinema norte-americano sempre foi uma arma de aculturamento em nossas cabecinhas tupiniquins. Quando ainda um niño de Jesus eu ia ao cinema em Candeias e na telona, linda, panorâmica, vasta e apaixonante, a magia do cinema me pegou para todo o sempre. E vai daí eu, embevecido, via filmes de cowboys metendo incontáveis e imerecidas balas em indígenas que eles, é claro, mostravam como sendo seres sórdidos, cruéis, insidiosos e nada hospitaleiros com o bom e sempre bem intencionados homens brancos ianques, com suas famílias e suas inflexíveis intenções de se instalar em terras consideradas sem dono, já que os indígenas não tinham escrituras lavradas em cartório. A bem da verdade, os autóctones não tinham nem cartório e sequer sabiam nada sobre a funcionalidade deles. Um dia, nesse Brasil brasileiro, mulato inzoneiro, surgiu em cena um cineasta chamado Lima Barreto e eis que ele abocanhou a Palma de Ouro em Cannes mostrando um brasileiríssimo cangaceiro em suas andanças pelo inóspito sertão. Tempos depois veio Glauber Rocha e seu genial Antonio das Mortes que deixou siderados cinéfilos e grandes diretores do planeta, e de quebra nos mostrou Deus e o Diabo se arrostando na Terra do Sol. E eu ali, sempre firme, apaixonado pela temática cangaceiro-e-sertão-do-nordeste. Sempre que faço uma HQ ou um cartum aproveito o tema. E quando pinto, o resultado são coisas como esta pintura aí, um painel de quase 1 metro e meio de largura por 2 metros de altura. Paixão pela temática de sertões e cangaceiros é issaí!
(19/10/14)

Norman Rockwell / Uns caras que eu amo 3



No vasto mar da Internet todos nós, intrépidos internautas, podemos desfrutar do prazer de olhar belíssimas ilustrações que ali foram postadas justamente para que possamos conhecer os trabalhos feitos por habilidosos profissionais. Esses artistas, valendo-se das mais variadas técnicas, produziram desenhos, gravuras e pinturas magníficos. Hoje, graças a sofisticados programas de computadores, qualquer ilustrador tem à sua disposição uma grande gama de possibilidades de produzir belíssimas ilustrações. A informática, sempre providencial, lhe dá múltiplas ferramentas para tornar isso possível, o que nos leva a pensar. Em passado bem remoto, ou nem tanto assim, havia artistas que produziam uma arte deslumbrante e eles não precisaram de computadores para serem os estupendos artistas que foram. Um cara como o ilustrador norte-americano Norman Rockwell, por exemplo, usava os materiais que o século XX lhe permitia usar, ou seja, prosaicos lápis, carvões, nanquim, aquarelas e tintas a óleo, desses materiais que perduram até os dias atuais, acessíveis a qualquer vivente. Isso foi mais que suficiente para ele alcançar a fama incontestável de gênio a que merecidamente faz jus. O grande diferencial estava em seu raro talento em pensar e executar seu ofício, o que o tornou um cara cultuado até essa era digital de tantas possibilidades maravilhosas de hoje. Norman tinha a habilidade para retratar pessoas e cenários de uma forma admirável. Sendo o grande artista que era não se limitava a fazer reproduções perfeitas, coisa que muitos bons artistas o fazem, ele ia além, bem além. Sabia como ninguém transmitir em minúcias a alma das pessoas e o clima de seu país. Seus pincéis mostravam de forma sútil mas evidente o sonho americano, anseios, alegrias, diferenças, incertezas, emoções de pequenos instantes da vida comum dos seus contemporâneos, em uma dimensão sem precedentes. Norman, sem ser panfletário nem estereotipar, fazia uma deliciosa crônica do american way of life. A paixão, as descobertas da infância e da adolescência, a solidão, os temores, as maledicências, o amor materno e todos os demais amores, a ansiedade, a angústia, a solidariedade, o preconceito mais indizível, a comoção, as certezas, as crenças, as esperanças. Tudo isso e muito mais, traduzindo como ninguém jamais o fizera, os sentimentos do americano médio, do pobre, do rico e mesmo os da raça humana como um todo, mostrando um olhar atento ao seu tempo, à vida como um todo. Sem jamais esquecer apaixonantes pitadas de humor e a mais refinada ironia. Fazer belas ilustrações muitos fazem e para fazer belos trabalhos gráficos o computador em muito ajuda os profissionais. Mas criar tendo o olhar atento e aguçado, a sagacidade, o humor e talento de Norman Rockwell, bem...aí é outra história.      

20 outubro 2017

Woody Allen na Sagrada Colina do Bonfim, na Bahia.

Sempre estóico e diligente, jamais sorumbático ou macambúzio, constantemente lépido, fagueiro, viril e altaneiro, dirijo-me no rumo da sagrada colina do Bonfim trajando brancas vestes como pede a última sexta-feira do mês aqui na Bahia. Envergando inconsútil túnica, lá vou eu para a igreja agradecer graças alcançadas a Nosso Senhor do Bonfim, Oxalá, nosso pai maior. Mal começo a subida, ouço às minhas costas alguém gritar meu nome: "Paulôôôôu!" Meu apurado ouvido de globetrotter e cidadão do Mundo experimentado reconhece o sotaque de Manhattan. Mas não reconheço a figura que me apela envergando caro e classudo chapéu panamá, uma medida do Bonfim no pulso esquerdo. Aproximo-me. Aquela tez alva, aquelas sardas no rosto, aquele cabelo ralo, os óculos fundo-de-garrafa não deixam margens a qualquer engano: é Woody Allen. Meses atrás eu estivera em NY e lá estando fui ao Café Carlyle, no Lower East Side, ver uma apresentação de Woody Allen and his New Orleans Jazz Band. No final, um produtor musical, amigo em comum, nos apresentou. A empatia foi mútua, conversamos e rimos muito. Ele então me disse que planejava visitar a Bahia quando arrumasse tempo para tal. Este dia chegou mais rápido do que eu pensava e agora lá está ele em carne (pouca) e osso (muito) ao lado de sua bela amada coreana, Soon-Yi, que vem a ser uma enteada de Mia Farrow - ex-Sinatra e André Previn - ficando a sino-girl famosa por ter sido um dos vértices do amplamente divulgado triângulo amoroso Woody-Soon-Yi-Mia Farrow. Mia, a despeito de ser uma celebridade, atriz afamada, reconhecida por ser pessoa de atitudes humanitárias autênticas e uma mulher vivida, ao fuçar qual uma noiva neurótica e nervosa, os intocáveis guardados do seu sagrado marido, acabou por descobrir que fora passada para trás. Aí armou um barraco sem precedentes, de deixar as maiores barraqueiras do subúrbio baiano de queixo caído. Minhas amigas me odiarão por isto mas, constatando de perto, estou mais que certo que o dito tímido Woody saiu ganhando amplamente ao trocar a barracante branquela por esta sílfide de tez levemente amarelada e oloroso hálito. Conversar com um intelectual brilhante como Woody Allen exige do interlocutor uma inteligência acima da média, que não tenho, conhecer filósofos e autores diversos. O homem é cineasta aclamado, ator, escritor e intelectual respeitado. Quanto a mim, tudo que sei sobre Proust é que ele vivia chegando atrasado aos compromissos, sempre correndo atrás do tempo perdido. De Goethe, que ele teve a luz cortada por falta de pagamento no fim da vida. E se ao meu lado alguém pronuncia Nietzsche, digo logo: "Saúde!" Ainda bem que como soteropolitano tenho lá minhas manhas e quando Soon-Yi vira-se para olhar uns balangandãs, uns panos-da-costa e um negão do Olodum, com um ar vitorioso e com um incontível orgulho lanço não uma, mas duas indagações assaz pertinentes to my pal: "Woody, buddy, aqui entre nós... é mesmo verdade que as mulheres asiáticas, em pé estando, têm a perereca na horizontal?". "Em assim sendo, é fato que ao descerem nuas por um corrimão a sino-perereca emite ruídos tais como tchup!tchup!tchup!tchup!?" Ahá! Aposto que ele não esperava que eu enveredasse por assuntos tão relevantes e de tais grandezas e profundidades. Posso não ser um elevado intelectual mas sei que a humanidade tem dúvidas eternas que desde os primórdios a atormenta, tais como "Quem somos?" "De onde viemos?" "Para onde vamos?", além dessas duas questões que tasquei em cima do meu bom amigo judaico. Ele principia a articular resposta quando uma buzina o interrompe. É a limousine que vem apanhá-lo. De dentro desce um chouffeur a caráter que abre a porta do veículo de onde salta um alucinado agente que, dizendo "We are late!", empurra o casal para o interior da limo. De lá, a bela Soon-Yi e o nada belo Woody me acenam um "So long", um pouco constrangidos pela repentina saída . O luxuoso veículo dá a partida e segue voando. E eu, ao pé da colina sagrada, me quedo sem ter mais uma vez as respostas que deslindariam para mim dois dos mais antigos e intrigantes mistérios da Humanidade.
(04/02/13)

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. Ali soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garantem uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família. Sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo uma imensa ''saudade de mim''.
(04/07/14)

16 outubro 2017

Lembrando Lage, cartunista tão brilhante quanto o Sol da Bahia

Quando perdemos Lage este país perdeu um dos seus mais brilhantes cartunistas. Hélio Lage era um profissional do Humor que tinha a capacidade rara de fazer um trabalho social e politicamente engajado, transparente, preciso, que atingia infalivelmente os alvos visados. Isto tudo sem perder a sua excepcional veia humorística, que Humor era com ele mesmo. Os amigos e os colegas das redações de jornais morriam de rir com suas frases espirituosas tiradas de improviso sobre qualquer situação e em qualquer local que ele se fizesse presente. Na charge, no cartum, nas HQs, nas suas tiras, Lage tinha a marca do ineditismo. Seu Humor era algo personalíssimo, original, com um timbre só dele, que eu nunca havia visto, que envolvia, apaixonava, encantava, capturava qualquer leitor inteligente, e tudo isso usando a mais risível, a mais autêntica, a mais louvável e deliciosa sacanagem baiana. Recordo-me claramente de cartuns e tiras feitos por ele há já vários lustros. E ainda rio muito com todos, sou capaz de citar de cor textos dos balões com as falas de seus personagens, da mesma forma que, em filmes norte-americanos, cinéfilos adolescentes citam longos diálogos entre protagonistas de seus filmes preferidos. Lage era universal e ao mesmo tempo, profundamente baiano, seu Humor escreve-se assim, com H maiúsculo. Ele fazia um Humor popular, Humor moleque, Humor intimorato que arrostava os poderosos de plantão. Nestes dias em que o Brasil vive dias sombrios, frutos de um governo ilegítimo guindado ao poder através de um golpe abjeto, Lage faz falta, muita falta, com sua lucidez, sua coragem, sua sagacidade, seus cartuns reveladores, capazes de traduzir toda a canalhice contida nos atos dos que estão destruindo sonhos, esperanças, vida cotidiana, tornando pó todos os direitos trabalhistas, dando privilégios aos já muito privilegiados, e entregando de bandeja aos gringos nossas riquezas pátrias, relegando o Brasil ao humilhante papel de mera colônia, em um inconcebível e inaceitável retrocesso.
Dona Benedita, mãe de Lage, Seu Anísio, seu pai, acertaram em cheio na escolha de seu prenome, Hélio. Como Hélio, o Sol, Lage brilhou intensamente nesta terra, nesta vida e nos iluminou a todos.
Para ver trabalhos do Lage, clique no link que leva ao Portal do IRDEB:  http://www.irdeb.ba.gov.br/imagens/media/view/528 e vá em Galeria de Imagens.
(18/03/14)

14 outubro 2017

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Álex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 
(15/01/17)

Ramona Fradon: uma mulher talentosa que provou que ser desenhista top de histórias em quadrinhos não é privilégio dos homens.

Quando falamos de histórias em quadrinhos e de seus grandes artistas em todos os tempos, a menção aos EUA é obrigatória, tão vastíssima é a produção norte-americana de tiras e HQs em todos os gêneros possíveis desde que essa forma de comunicação foi levada a leitores do mundo inteiro. Dentre esses leitores, os mais assíduos sabem citar de cor e salteado uma extensa lista com os desenhistas e argumentistas mais afamados e talentosos. No entanto, o talento nem sempre caminha pari passu com a fama e assim, há artistas maravilhosos, excelentes em seu ofícios que apesar de seus invejáveis talentos não têm o nome conhecido nem costumam ser citados pela grande legião dos fãs da Nona Arte. Quando se fala em profissionais, as histórias em quadrinhos são sempre associadas às figuras masculinas. Geralmente as pessoas ignoram que há ótimas profissionais escrevendo ou desenhando HQs. Uma dessas profissionais chama-se Ramona Fradon, uma desenhista espetacular com uma respeitável e diversificada produção de quadrinhos, notadamente na área de heróis ou superheróis como Aquaman, Batman, Robin, Mulher Maravilha, Superman, Supergirl, Superamigos, Lanterna Verde e uma interminável lista mais. Ramona é hoje uma bela senhora de bem vividos 90 anos de idade e iniciou a trabalhar como profissional em 1950, fazendo diversas funções, seja executando desenhos a lápis ou atuando como artefinalista, capista, criadora de personagens. Sempre requisitadíssima, produziu incontáveis trabalhos para a DC Comics e para a Marvel Comics, entre outros grupos notáveis. Ganhou prêmios importantes, sendo que em 1999 ingressou no Woman Cartoonists Hall of Fame, e em 2006 no Eisner Award Comic Book Hall of Fame. Por tudo isso, Ramona pode ser também considerada uma verdadeira Mulher Maravilha. 
Ilustro essa postagem com mais trabalhos de Ramona Fradon. Deliciem-se, amáveis e privilegiados leitores. De quebra, posto uma foto dessa wonder lady para vocês verem com seus próprios olhos que aos 90 anos ela se mantém uma gatinha. E o mais importante: em plena atividade profissional, segue nos brindando com seus desenhos magníficos.
(27/08/16)

J.Bosco, um caricaturista e seu livro de maravilhas

1. Lupicínio Rodrigues 2. Bertold Brecht 3. Martin Luther King
Fui agraciado esse ano com grandes e preciosos livros de assuntos, os mais diversificados: poesias, contos, crônicas, biografia, cartuns, caricaturas. E é justamente sobre um livro de caricaturas em especial que quero falar a vocês, diletos e amados leitores. Trata-se de uma edição primorosa, graficamente muito linda, contendo magnífica mostra da obra de J.Bosco, um artista do cartum, da charge, da caricatura e do grafismo, que veio ao longo dos muitos anos de profissão mostrando uma clara e incontestável evolução de seu trabalho - do traço à maneira de criar e definir seu desenho - até atingir o atual estágio em que se evidencia sua maturidade e os caminhos próprios que adotou para nos brindar a todos nós, seus leitores e fãs. O traço de J.Bosco tem, a meu ver, algo do consagrado caricaturista Loredano. Só há mérito nisso, influências são coisas naturais na trajetória de qualquer grande artista na busca pelo seu caminho pessoal e essa ascendência certamente ajudou Bosco a criar seu trabalho pessoal, maduro, personalíssimo, tão consagrado hoje em todo o Brasil. Seu traço é bonito, suas hachuras são limpas e precisas, sua interpretação lança um olhar novo sobre personalidades já tão amplamente retratadas por outros consagrados caricaturistas. No livro, outra coisa digna de elogios é a cuidadosa seleção das 80 personalidades retratadas. Nada de subcelebridades, só o que há de melhor na música, na literatura, no cinema.  Desfilam pelas páginas do livro nomes como Pedro Almodóvar, Pixinguinha, Penélope Cruz, Cantinflas, Mazzaropi, Tarantino, Jackson do Pandeiro, Glauber Rocha, Groucho Marx, Jean Reno, Sean Connery e outras maravilhas que brindaram a humanidade com seus talentos. Um deleite para os olhos dos admiradores da nobre arte da caricatura, uma fonte generosa de prazer para todos que admiram essa forma de expressão. Eu poderia aqui dizer que Bosco está no apogeu de sua criativa carreira de caricaturista, mas teria que completar dizendo que isso é só por enquanto, a notável evolução do trabalho de JB seguramente vai levá-lo a patamares mais altos e seu traço se tornará ainda mais bonito e preciso, não tenho a mínima dúvida. Para dar uma idéia da excelência do trabalho bosquiniano, ressalte-se que a cultuada revista Gráfica, capitaneada pelo venerado Miran, recentemente dedicou uma de suas disputadas edições ao trabalho desse artista paraense, mostrando que a caricatura brasileira torna-se muito mais rica e admirada com a arte de J. Bosco. 
(Publ. orig. 29/11/15)

13 outubro 2017

Caetano, Glauber, Jorge Amado em uma seleção de artistas e intelectuais do mundo inteiro

De cima para baixo e (sem nenhuma intenção de conotação política) da esquerda para a direita:
Sigmund é Freud/Salvador Dali da Catalunha/Jean Terrible Genet/Fernando Muitas Pessoas/Albert Little Tongue Einstein/Louis Cheeks-and-Arm-Strong/Villa-Índio-de-casaca-Lobos/Charlot Chaplin/Jorge Mui Amado/Caetanos Velosos/Glauber Deus-e-o-diabo Rocha/Marlon Nada Brando/Luciano Gogó Pavarotti/Woody Woodpecker Allen/Nelson Flu-e-Flag Rodrigues/Elvis The Pelvis/Andy Peacehol/Imagine Lennon
(28/03/2014)

José Cândido de Carvalho, escritor: visão ecológica lúcida bem antes do G8

Além de nos mimosear a todos com obras literárias de grande inspiração, José Cândido de Carvalho, cidadão atento, mente lúcida, de quebra nos alertava em 1970 para os crimes perpetrados contra a natureza em nome do progresso. Falar em defesa da ecologia e do ecossistema hoje é uma praxe de muitos neste planeta com tantos crimes ecológicos e superaquecimento, ainda que os culpados pelos graves problemas contra o planeta se sintam livres para continuar em suas práticas nefárias. José Cândido, inteligente, antenado, consciente, premonitório, antevendo que tudo redundaria nos graves problemas do mundo de hoje, já alertava contra o que estava por vir e assim escreveu e publicou isto 40 anos atrás :
" E agora, não tendo mais o que inventar, inventaram a tal da poluição, que é doença própria de máquinas e parafusos. Que mata os verdes da terra e e o azul do céu. Esse tempo não foi feito para mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo que esse monstro, feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de Deus. Já está agindo por contra própria. "
(25/09/2014)

11 outubro 2017

Mulher de Libra no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de Libra
balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.
(121013)